segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Eu também penso neles...

via

Fui pôr o saco do lixo na rua, e o tritinado de um grilo chamou-me a atenção; estaria no quintal do outro lado da estrada? Mas o som era tão alto que me parecia mais próximo. Curiosa, fui-me aproximando da origem, e mal dei dois passos, ainda perto da soleira da minha porta, encontrei-o. O grilo estava alojado num minúsculo buraco do alcatrão recentemente colocado, e mal colocado, junto ao passeio. Perplexa, indaguei-me como teria ele aí ido parar, de que se alimentaria? 
Lamentei a sorte do grilo naturalmente cantador. Enfiado num buraco negro, rugoso e pestilento ao invés do seu habitat natural, terra fresca com odores a ervas e flores silvestres. Perto do seu alimento. Longe dos bichinhos que habitam a terra como ele, e debaixo da iminente ameaça dos carros e pés humanos. 
Especulo se este grilo escolheu o exílio, a natureza deixou de ser lugar seguro para o reino animal. E a fumaça, sobre as colinas que nos rodeiam, lembra-me que já nem aonde vivem humanos o refugio está garantido. Mas será talvez aqui o último abrigo. Eu sei que para o grilo este asilo tem os dias contados. E é triste.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Destinos paradisíacos? 😶




Há uns tempos eram notícias festas privadas de adolescentes, que de repente tomavam dimensões gigantescas, e descontroladas por terem sido divulgadas nas redes sociais. Os convidados apareciam às centenas, milhares. Parece que o fenómeno desapareceu, alguém aprendeu a lição ou a notícia deixou de ter impacto. Porém, surgem agora notícias semelhantes, não relativas a festas, mas a locais específicos, caracterizados por paisagens excepcionais, águas cristalinas, vegetação tropical, ou arquitectura consensualmente bela, que da noite para o dia passam de segredos locais, a destinos das massas. 

De cada vez que no meu feed do FB surgiam fotografias extraordinárias, deste tipo de local, partilhadas por sites temáticos, ou pelos meus amigos, eu temia que fosse este o resultado. Pois então, aconteceu numa localidade em Itália, um pequeno vídeo bastou para promover a invasão descontrolada. A população não se queixa das pessoas, queixa-se do comportamento das mesmas. 

Pode ser esse um caso de maiores proporções, porém neste Verão já senti a invasão dos turistas num local da natureza, que frequento como se sagrado fosse, e vi o rasto deixado por aqueles que vão à caça da selfie, do momento passageiro, do banho fresco e bronzeado moderno, dando como moeda de troca as beatas, a garrafa de cerveja esquecida, as sacas plásticas voadoras.
Isto não é de gente que gosta da natureza. Não é de gente que aprecia o silêncio, a tranquilidade. Isto é apenas de gente que tem conta nas redes sociais, e aí encontra dicas de sítios a visitar, e aí publica as fotos para os outros porem likes

Recentemente li a entrevista a uma certa actriz portuguesa, na qual à pergunta sobre a sua praia favorita, ela respondeu: "Isso é segredo; mas também frequento tal e tal." Adorei a resposta. É assim mesmo que todos devemos proceder; guardemos os nossos locais favoritos como segredos, não é inveja, é preservação. É cuidado para com esses locais; é respeito por esses sítios, pelas criaturas e pessoas que aí habitam.
A verdade é que o mundo não está preparado para estes paraísos.